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Snoop Dogg – Coolaid (2016)

A lenda do hip hop americano ainda entretém

Por Gabriel Sacramento

Desde seu surgimento na década de 70, o hip hop vem sendo um instrumento de expressão de grupos sociais oriundos dos subúrbios e guetos americanos. Uma das características mais marcantes do estilo é o fato de refletir o estilo de vida e a linguagem dos envolvidos, mesmo que estes sejam discriminados pela sociedade.

E dentro da cena americana do gênero, Snoop Dogg apareceu na década de 90. Apoiado por gente muito importante do estilo, como Dr. Dre, Dogg conseguiu imprimir sua marca e personalidade, tornando-se conhecido por todo o mundo como uma estrela do hip hop. Um dos fatores que fizeram o rapper conseguir tanto sucesso, além de seu notável talento, é que ele é como uma personificação dos ideais do estilo, vivendo exatamente como e o que canta.

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Depois de uma fase obscura e confusa, na qual o rapper americano parecia não estar muito certo da sua identidade, Dogg resolveu reafirmar seu legado e retornar ao que faz de melhor em seu novo disco, COOLAID. O nome do álbum faz referência a Kool Aid, uma marca de sucos famosa nos Estados Unidos. Na capa do álbum também percebemos a relação com o produto. Para a produção do álbum, Snopp contou com nomes como Timbaland e Just Blaze (famoso por produzir álbuns do Jay-Z). Também contou com participações de vocalistas como Wiz Khalifa e Too $hort.

E como um bom álbum de retorno, Dogg faz questão de ratificar quem é. Ele louva seu legado em “Legend”, reconhecendo que é uma lenda do hip hop. As referências a si mesmo continuam por todo o álbum, sendo mais marcantes em algumas faixas como “Feel About Snoop”. Já em “Coolaid Man”, Snoop fala bem de rappers novos (comparando-os com ele mesmo, claro), mostrando que ele também se atualiza com relação ao que surge de novo e sabe reconhecer o bom trabalho alheio. Além disso, Dogg também toca em temas sérios em “Revolution”, afirmando que a “revolução vai ser televisionada” (algo que o Jeff Beck também disse no seu Loud Hailer, este ano). Aliás, essa frase foi usada ipsis literis por Dogg em sua participação na faixa “Welcome To The World Of The Plastic Beach” (2010), do Gorillaz, mostrando que é uma ideia que vem circulando por seus neurônios há um bom tempo.

Para “Oh Na Na”, Snoop chamou um dos grandes rappers da atualidade, Wiz Khalifa. E com certeza ele pensou em synthpop para compor a base da música. A canção acrescenta um ótimo molho R&B ao álbum, com melodias agradáveis e fáceis de cantar. Também lembra alguns momentos de seu disco anterior, Bush (2015). Khalifa volta para um show de rap em “Kush Ups”, com os dois vocalistas conduzindo os versos perfeitamente dentro do ritmo, alternando frases rápidas com frases mais lentas, com ajuda de ótimos overdubs ao fundo. A já citada “Legend” abre o álbum com uma base pesada e hipnótica de trap. O flerte com o R&B volta em “Double Tap” com participação do rapper E40. Já “Afiliated” é uma boa faixa de hip-hop, como manda o figurino.

Snoop Dogg não é só um rapper. Snoop Dogg é uma marca. Uma marca famosa e que vale milhões. O poder dessa marca na música hip hop é indiscutível. Dogg utiliza seu nome nos títulos dos álbuns de forma criativa, além de fazer referências ao próprio nome nas canções desde o início da sua carreira. Isso funciona muito bem para ele, como uma imposição de sua identidade e originalidade.

COOLAID cumpre a missão de trazer o rapper de volta às suas origens, com vinte músicas que soam interessantes e deixam uma boa impressão. É um disco que exalta o artista, trazendo mais do seu rap único, aliado a participações relevantes e bases precisas. Depois de mais de vinte anos de carreira, o trabalho tem uma energia que se assemelha aos primeiros lançamentos, mostrando que Dogg não perdeu muito daquilo que impressionava na década de 1990.

Mesmo com um repertório longo – algo que foi o erro do rapper Drake em seu VIEWS – Dogg consegue agradar e entreter o ouvinte ao longo de todas as faixas, nos trazendo o melhor do hip hop americano. Diversificando um pouco aqui e ali, mas soando bem fiel às normas do estilo e sem soar repetitivo demais.

Não sei até quando o hip hop continuará sendo um estilo relevante, com contribuições fortes para o mundo da música. Mas sei que enquanto a lenda Snoop Dogg continuar fazendo álbuns como este, o estilo continuará respirando sem a ajuda de máquinas.

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Britney Spears – Glory (2016)

Britney Spears inclui o indie no mainstream e arrisca muito mais em novo álbum

Por Lucas Scaliza

Melhorou, e melhorou bastante. Basta ouvir uma vez Glory para ver que Britney Spears entrega a seu público algo muito melhor que Britney Jean, seu criticado disco de 2013, e que aponta uma bem-vinda evolução capaz de surpreender. Ela continua sendo a mesma de sempre, dialogando com o mesmo público e para o mesmo segmento de mercado, mas seu novo álbum tem frescor, o que já a coloca a frente de diversas “concorrentes” do mainstream e mostra às indies que também está antenada com o que acontece nesse mundo paralelo da música – e que não deve ser ignorado.

Madonna e Gwen Steffani possuem boas vozes, mas o último disco de ambas sofreu atirando para todos os lados e apostando em tendências cansativas. Spears conseguiu diversidade de som ao mesmo tempo em que manteve uma estética geral para Glory. “Invitation” é talvez a canção mais experimental e etérea que Britney já gravou para um álbum. O single “Make Me…” se aproveita dos sons do indie pop para fazer uma canção sexy. Repare na guitarra que complementa o arranjo. Um recurso que parece tirado de Lana Del Rey e aliado ao estilo pop de Britney. Antes de ouvir “Private Show” seria impossível esperar dela uma música em que a percussão são estalos de dedo e um sample de voz em loop é o grande responsável pela base harmônica. Se tiver que escolher uma música que atesta como B. S. realmente resolveu arriscar mais desta vez, seria essa. “Clumsy” começa com uma parte 2 de “Private Show” e evolui para algo próximo do trance. Ainda assim, os arranjos dos versos são criativos e não repetem o EDM comercial que homogeneizou o cenário pop.

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O show de Britney continua com “Man On The Moon”, canção melodiosa que, se fosse gravada de 3 a 8 anos atrás, teria ganhado uma percussão para boates e teclados gigantescos, perdendo a doçura inocente com que se apresenta agora. “Just Luv Me” aposta novamente em sons mais etéreos e aveludados. “What You Need” é outra que vai contra as apostas de qualquer um, com sopros em staccatos durante sete minutos. Só ouvimos um acorde completo deles no último compasso da música. Mais uma que surge como “a” diferente do álbum, apesar de sua melodia fácil e ritmo animado que teria tão bem servido para mais uma faixa dançante comum. (A música ainda é dançante, mas com um leve toque de smooth jazz agora).

Conforme as faixas avançam, o ouvinte é apresentado aos diversos timbres vocais de Britney Spears. Desde o registro mais graves, passando pelos mais naturais e também a sua voz mais aguda e infantilizada, aquela que serviu tão bem ao longo da carreira para canções chiclete. Aposta até em vocais suspirados, como na interessante “Coupure Électrique”.

Glory tem potencial para as pistas de dança e tem potencial para ser sensual. Nem todas as faixas são exemplares, mas se esforça bastante para ser interessante até o fim. Ao mesmo tempo em que mantém alguns clichês do gênero, inclui elementos do dream pop e do indie que garantem o equilíbrio de Glory. Se Britney Jean parecia um pastiche do eletropop de 2013, este novo álbum tem mais personalidade, e a pontinha de ambição que percebemos em metade das músicas do repertório fazem a diferença.

A cantora americana começou a trabalhar em novas músicas ainda em 2014. Foi paciente e deixou o disco acontecer, sem pressa. O resultado é um trabalho que soa muito menos ansioso e desesperado, mais maduro e preocupado com a expressão musical. Aquelas frases vocais e sonoras repetitivas e irritantes que eram tão cafonas e datadas em Britney Jean se foram.

40 nomes aparecem nos créditos do álbum, entre produção e composição. Das 17 faixas, B. S. é coautora de sete, ficando abaixo da média de participação que Rihanna e Beyoncé tiveram em seus mais recentes álbuns. No entanto, vale destacar que Lemonade teve 70 colaboradores e Anti, 67. E apenas o single “Make Me…” tem o feat do rapper G-Eazy. O recurso das participações especiais, tão comum no pop e no R&B, também é evitado, mostrando que Britney Spears dá conta sozinha de conduzir um álbum inteiro e de atrair a volátil atenção do público. A bem da verdade, ela usou bem pouco esse artifício ao longo de seus nove discos de estúdio e agora reduziu ainda mais do que em Britney Jean e Femme Fatale (2011).

B. S. não vai ganhar mais público com Glory. Suas novas músicas não têm a mesma verve de Beyoncé e Rihanna para propor algo tão diferente ou levantar uma bandeira política, mas é um grande lançamento pop que vai fazer barulho. Não vai mudar a visão que temos da artista e nem elevá-la a um novo patamar musical, mas talvez ela passe mais credibilidade ao ouvinte mais atento. Ainda é comercial, mainstream e pop acessível, mas agora com um feeling para o diferente que antes era quase inexistente.

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Episódio 00 – No Chuveiro Com Bon Jovi

Pois é, fãs incondicionais de música. O Escuta Essa Review agora também tem um podcast!

A ideia é continuar fazendo a apreciação crítica de álbuns neste blog e usar o podcast para comentarmos singles, músicas avulsas, assuntos que não se encaixam na linha editorial do blog e, claro, indicar muitas bandas novas (ou não) para você. Promovendo a discussão entre os editores Lucas Scaliza, Bruno Sanches e Gabriel Sacramento, conseguimos ir um pouquinho além da crítica musical neste novo formato.

A ideia que lancemos episódios semanais. Por isso, siga-nos no Facebook e no Soundcloud para não perder nenhum episódio. Vamos antecipar críticas e, quem sabe, indicar artistas, bandas e músicas que podem nem figurar no blog.

Neste episódio zero comentamos os novos singles de Green Day e Bon Jovi, o primeiro disco solo (e country) de Steven Tyler (Aerosmith) e ainda indicamos a poderosa banda sueca Blues Pills. Coloque seus fones, aumente o volume e divirta-se!

Facebook: www.facebook.com/EscutaEssaReview
Contato: escutaessareview@gmail.com

VÍDEOS RELACIONADOS

Bon Jovi no chuveiro: www.youtube.com/watch?v=8BQUk6fsbeE

Bon Jovi no casamento: www.youtube.com/watch?v=d2QutKNfAPc

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Night Moves -Pennied Days (2016)

O dream pop cósmico (e perfeito)

por brunochair

O álbum do qual falaremos a partir de agora não é propriamente um lançamento. Passou batido pelo radar dos escritores deste humilde espaço, mas a sorte é que pudemos recuperá-lo a tempo ainda este ano: Pennied Days, segundo disco do trio Night Moves, é um belo passeio por arranjos e melodias pop agradáveis, que agradam a qualquer ouvinte de primeira viagem.

Provenientes de Minneapolis (EUA) a banda surgiu em 2010 fruto da ideia de três amigos: o guitarrista e vocalista John Pelant, o baixista Mickey Alfano, e o multi-instrumentista Mark Ritsema. Para este segundo álbum, a banda contou também com o reforço de Josh Evert (bateria) e Jared Isabella, em razão da necessidade do grupo de ampliar tanto os horizontes musicais quanto os instrumentos (sintetizadores, teclado).

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Este álbum, por sinal, dá vazão a uma gama sem fim de estilos e influências. O vocalista consegue soar uma mistura de Rod Stewart e Bryan Adams em músicas como “Kind Lucy” e “Leave Your Light On”. O Night Moves como banda faz uma festa entre o dream pop, referências ao folk/pop e alcança uma sonoridade cósmica, até representada sob o nome da música “Carl Sagan”, em que as relações humanas são fruto de uma comparação com os movimentos dos astros.

Se estamos falando de dream pop, não tem como deixar de fazer a referência aos ícones deste movimento, o Tame Impala. “Border on Border” lembra muito aquele frescor californiano do Trails And Ways, e um resquício aqui e ali de Alpine. As guitarras, que flutuam e criam atmosferas como em “Denise, Don’t Wanna See You Cry”, lembram muito o trabalho de Adam Granduciel no The War on Drugs.

Neste cenário em que o pop perfeito e o psicodélico estão entrelaçados, o contemporâneo e as referências às décadas de 60, 70 e 90 fazem de Pennied Days um disco bastante singular. O maior símbolo desta experimentação está em “Hiding in the Melody”, que é como um tratado estético do que o Night Moves considera ser música, para que e para quem estão criando arte. Um delicioso segundo registro desta criativa banda, que parece sugar energia de algum lugar desconhecido do cosmos para entregar a nós músicas espaciais (e especiais).

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Ólafur Arnalds – Island Songs (2016)

Artista eletrônico e músico erudito reverencia a música de sua ilha natal, a Islândia

Por Lucas Scaliza

Ólafur Arnalds é um dos nomes mais interessantes de se acompanhar da música islandesa contemporânea. Ele é DJ e multi-instrumentista. Ao lado de Janus Rasmussen, é um artista eletrônico no duo Kiasmos. Já foi baterista de bandas de metal. Faz música ambiente e trilhas sonoras (como a do seriado Broadchurch). E inclusive faz incursões pela música erudita, seja ela em seu estado mais cristalino (como o disco reinterpretando Chopin com a nipo-alemã Alice Sarah Ott) ou misturada a intervenções eletrônicas (como nas colaborações com o alemão Nils Frahm).

Seu novo trabalho é uma carta de amor à sua terra natal, a Islândia. O projeto que deu origem a Island Songs mistura deslocamento geográfico, laços de amizade e exploração pelo folclore da ilha escandinava. Este ano, Arnalds tirou sete semanas para viajar para sete regiões diferentes do país e em cada uma encontrou músicos dispostos a criar e tocar novas composições com ele. A cada semana, uma nova peça musical seria criada e registrada em vídeo pelo diretor Baldvin Z. Usando as redes sociais, todo o processo da viagem, da composição e gravação foi documentado e acompanhado pelos fãs e interessados (todos os vídeos estão no YouTube).

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Island Songs, o projeto, virou um álbum. Embora seja um músico que mire a perfeição, deixou-se levar pela música em estado mais bruto e natural para gravar todas as canções ao vivo (enquanto Baldvin filmava), permitindo que o improviso fosse parte do processo.

O que Ólafur Arnalds conseguiu, mais uma vez, foi uma coleção de músicas suaves que fazem bem ao coração. E o que ele conseguiu de forma inédita em sua obra é retratar um pouquinho mais dos sons que fazem parte da Islândia, seja seu lado mais folk, mais erudito, mais experimental ou mais pop. E o nível de sensibilidade é impressionante.

“Particles”, a única com vocais em inglês, é cantada por Nanna Bryndís Hilmarsdóttir, do Of Monsters And Men, com alma e entrega. “Dalur” é obra erudita com Arnalds no piano, dentro de uma espécie de bar, e o trio de sopros Brasstríó Mosfellsdals do lado de fora, mostrando a típica dinâmica dos sopros islandeses, menos virtuosos que o jazz americano e mais abstrato que a maior parte da música folclórica europeia continental. Gravada em uma pequena capela, “1995” tem a contribuição de Dagný Arnalds no órgão, Ólafur nos sintetizadores que surgem pra lá da metade da canção e um trio de violinistas. A repetição do fraseado de Dagný é a base para todo o desenvolvimento melódico melancólico das cordas.

“Árbakkinn” abre Island Songs com uma narração em islandês do poeta Einar Georg, escolhido entre mais de 100 possibilidades. Além do piano de Arnalds, um quarteto de cordas completa a sonorização deste poema musical. Na climática e belíssima “Öldurót”, Arnalds une forças com a orquestra SinfoniaNord e com o maestro Atli Orvarsson que por muito tempo foi um compositor de trilhas em Hollywood e agora fixou residência na ilha nórdica novamente.

Fãs de Björk, talvez a voz mais famosa da Islândia, sabem como os corais de lá são versáteis, empregando técnicas da música clássica em canções pop e eletrônicas para criar um efeito único. Ólafur Arnalds se aproveita disso em “Raddir”, gravada com a South Iceland Chamber Choir dentro de uma igreja. Quando o coral termina de emanar as melodias tristes, um quarteto de cordas assume a canção e a leva até o fim. “Doria”, embora gravada em uma sala escura de concertos na capital Reykjavík, é o raio de luz do disco. Colorida, alegre e esperançosa desde o início, ascende suavemente com todos os violinos, violas e cellos para depois dar protagonismo ao piano de Arnalds, terminando em um acorde que nos deixa na expectativa de reencontrar o tom da música, o que não acontece.

O trabalho de Baldvin Z. é primoroso. Sempre grava planos sequência e dirige cada movimento da câmera com leveza e uma sensibilidade que quase dá para tocar. Seja rodando em volta dos músicos na torre onde foi gravada “Particles”, ou seja passeando pelos rostos das pessoas no bar em “Dalur”, o diretor nunca erra a mão. Mas o seu melhor está em “1995”. Se aproxima com cuidado dos músicos, deixando a música fluir, e no final, quando quase não há mais música, a câmera se precipita na direção da janela, enquadrando através dela a brincadeira de duas crianças. Um momento surpreendente e singelo.

Island Songs é feito de emoções nada piegas e de recursos nada gratuitos. Se tem toda a modernidade ou a estranheza que a música da Islândia pode proporcionar, também tem em seu âmago os sentimentos mais comuns a todos os ouvintes. É uma viagem pelo interior do país, captando a arte feita por artistas locais, e não por gente com tendências globais (ou mesmo nacionais). Temos, assim, uma etnografia íntima da música islandesa vista por dentro.

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Steven Tyler – We’re All Somebody From Somewhere (2016)

Disco solo do vocalista do Aerosmith apresenta uma faceta do cantor até então pouco explorada

Por Gabriel Sacramento

O americano Steven Tyler é uma das figuras mais emblemáticas da história do rock. Disso, poucos duvidam. Mas quando em 2015 anunciou que lançaria um álbum solo country, Tyler surpreendeu muita gente – e desagradou a outros. Mesmo assim, ele seguiu em frente com o projeto e aproveitou a sua fama para conseguir um contrato com a gravadora Big Machine Label Group – considerada uma das maiores gravadoras do country. Tyler também se mudou para a capital do gênero, Nashville, e se uniu a famosos músicos da região para composição e produção do álbum.

A ideia foi um tanto perigosa: não é todo mundo que depois de anos de carreira em um gênero, se aventura do nada aos 68 anos para outro estilo musical. Mas Tyler quis expressar o que sente e isso o motivou a escrever novas canções. Seu primeiro álbum solo ganhou o nome de We’re All Somebody From Somewhere.

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Foto: Gregory Shamus/Getty Images

Embora tenha sido composto calcado no country, o disco possui pontas de outros estilos. “My Own Worst Enemy” abre é a balada confessional cheia de feeling e com uma performance vocal digna de nota que abre o trabalho. Tyler consegue ser ele mesmo, com o drive e as notas altas, ao mesmo tempo em que canta uma balada country que termina com um solo bem rock’n’roll. A esquisita “Hold On (Won’t Let Go)” traz um toque de psicodelia ao repertório, mostrando que Tyler soube diversificar as coisas. Os efeitos e o experimentalismo dosado me lembram algumas ideias que Jeff Beck explorou em seu último álbum solo, Loud Hailer.

Temos uma série de baladas amorosas como “It Ain’t Easy”, “Love Is Your Name” e “What Am I Doin’ Right”. Uma série de canções country pop que farão Luke Bryan e Eric Church se incomodarem com mais um concorrente no topo das paradas, como “Red, White and You” e “Sweet Lousiana”. Ainda tem um cover do Aerosmith de “Janie’s Got A Gun” (com o instrumental tocado pelos caras do Stone Temple Pilots) e “Piece of My Heart”, que ficou conhecida na voz da Janis Joplin. Destaco a interpretação do vocalista nestas duas faixas.

A ideia era ousada e Tyler embarcou com empenho para obter bons resultados. E ele conseguiu. O disco traz o velho Steven Tyler que todos conhecem e gostam, com seus trejeitos, seu estilo vocal e um pouco da loucura que estamos acostumados a ver e ouvir. Embora a impressão da sua personalidade roqueira seja mais dosada (afinal, o foco de We’re All Somebody From Somewhere não foi esse”, Tyler consegue manter sua personalidade vocal mesmo quando nos apresenta novas canções diferentes e variadas.

Muita gente criticou o álbum por querer agradar o público country e ao mesmo tempo o público do Aerosmith. Na verdade, Tyler fez a jogada mais inteligente que podia. Seria arriscado demais para ele se afastar completamente das suas influências roqueiras e das características de sua banda que já impregnam suas cordas vocais. Por isso, ele faz algo novo ao mesmo tempo em que louva o passado com algumas referências ao som mais roqueiro.

É bom lembrar também que o próprio Aerosmith fez um disco inteirinho de covers de blues chamado Honkin’ On Bobo (2004) e, na época, a gravadora achava que o grupo deveria continuar com seu rock habitual. Como a banda bateu o pé e seguiu em frente com a ideia, a gravadora anunciou que se afastaria do projeto, lançariam o álbum, mas não investiriam nele. Ao chegar ao mercado, o resultado de vendas do álbum foi excelente e a gravadora voltou atrás. Parece que o público entendeu que o Aerosmith sempre fora uma banda blueseira desde sempre. A gravadora é que não tinha entendido.

O que alguns críticos e fãs chamaram de falta de personalidade pode ser entendido como uma impressão de uma outra faceta do cantor que até então tinha sido pouco explorada. É pop country, com melodias acessíveis e fáceis de serem cantadas, aliado à veia roqueira, que fica mais evidente com os drives e com a agressividade vocal de alguns momentos.

We’re All Somebody From Somewhere é um bom álbum que possui suas virtudes na variedade e na diversidade que tenta apresentar. Depois de tantos anos de carreira e de estrada, Tyler meio que quer apresentar um pouco de cada coisa que aprendeu na vida, construindo um conjunto com as diferentes partes que compõem sua experiência no mundo da música.

Além disso, é legal ouvir a voz do cantor americano usada em novas e interessantes ideias, diferentes do que ele já produziu.

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MAGIC! – Primary Colours (2016)

Superficial e não acrescenta muito ao que já existe no pop atual

Por Gabriel Sacramento

Você já deve ter lido em muitos textos aqui no Escuta Essa álbuns pop que apresentam problemas semelhantes: falta de ousadia, profundidade e de uma impressão mais forte, que nos faça querer continuar a ouvir várias vezes o mesmo disco. Esses problemas são recorrentes em discos pop atuais e transmitem o desejo exasperado dos artistas por sucesso e fama.

Vale ressaltar que não há nenhum problema entre os resenhistas deste blog e os discos populares, pois buscamos ouvir de tudo sem preconceito para tecer comentários racionais e inteligentes. Mas tratam-se de fatores negativos que têm aparecido em diversos álbuns e precisam ser pontuados nas análises.

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Feita essa consideração, vamos à análise: O grupo Magic! lançou mais um álbum, uma continuação do primeiro, Don’t Kill The Magic (2014). Musicalmente, a banda aposta no reggae fusion – um mix de reggae com outros estilos, como pop e R&B – do disco anterior, sem muito de novo ou que possa surpreender.

“Have It All” abre com tudo, trazendo um clima tropical ao trabalho. É uma música bem alegre, com melodias dosadas e com alguns coros típicos. Daí vem uma série de canções mais focadas no reggae do primeiro álbum: “Lay You Down Easy”, “Red Dress”, “Dance Monkey” e “The Way God Made Me”. Todas que seguem muito bem a fórmula que deu certo com o hit “Rude” de 2014.

A banda tenta alguns elementos diferentes, como em “Gloria”, que tem um quê de ABBA, mas a canção exagera na sacarose, principalmente no refrão. Já a faixa-título soa bem rasa, padronizada, sem nada de novo ou interessante para se ouvir.

Os únicos grandes momentos de Primary Colours aparecem quando a banda abre mão da instrumentação cheia e preza pelo simples, como em “No Regrets”, com um violão bem executado e vocais suaves e precisos. A outra grande faixa é “I Need You”, calcada no piano e interpretada com muito feeling pelo vocalista Nasri. Soa como um pedido desesperado do eu-lírico que precisa de quem ama e o cantor consegue transmitir esse sentmento com sucesso.

No geral, o álbum é mais um lançamento que segue a fórmula pop padrão. A banda se mostra um pouco acomodada, investindo nas mesmas (e manjadas) ideias que exploraram no disco de estreia, sem se preocupar em trazer algo mais marcante e/ou diferente. Ouvimos várias referências ao que banda fez com “Rude”, transmitindo a sensação de “já ouvi isso antes”. Além disso, tudo é muito acessível e consequentemente um pouco superficial. Por preferir clichês em grande parte das canções, a banda perde a chance de fazer algo mais profundo e memorável. Falta, assim, ousadia para assumir riscos.

Apostar no confortável não é errado. É até compreensível. Uma vez que deu certo, a tendência das bandas é continuar a fazer o que deu resultado. O problema dos canadenses do Mgic! é esgotar todas as forças tentando reciclar as mesmas ideias do disco de estreia, sem criar nada muito significativo e marcante que faça do segundo uma obra destacável. Por isso, Primary Colours pode ser entendido como um “Don’t Kill The Magic 2”, uma mera seleção de músicas que não entrou no début, e não como um álbum novo com novas ideias.

Primary Colours é pop feito para tocar nas rádios no mundo afora que acaba não acrescentando muita coisa relevante para a carreira do grupo nem para o que já sendo produzido no pop atualmente por outros artistas. A superficialidade é evidente e prejudica o álbum. Recomendo o disco se você quiser se divertir apenas, com algo fácil e dançante. Mas não acredito que vai querer continuar ouvindo por muito tempo.

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Of Montreal – Innocence Reaches (2016)

Kevin Barnes se esforça, mas não soa interessante

Por Lucas Scaliza

Faz só quatro anos, mas parece muito mais distante o tempo em que a banda Of Montreal parecia nos mostrar uma quebra de paradigma a cada novo disco. Depois do leve e calmo Lousy With Sylvianbriar (2013) e do morno Aureate Gloom (2015), o 14º álbum do grupo norte-americano parece confirmar uma fase estacionária da banda, destacando um Kevin Barnes, guitarrista, vocalista e compositor, correndo muito menos riscos e menos surtado do que sempre foi.

Não há nada nos últimos três discos do grupo – incluindo este novo – que passem perto do caos dinâmico e esquizofrênico que abriu Paralytic Stalks (2012) tão bem. A faixa “Gelid Ascent” era espacial e psicodélica, cheia de camadas com vozes, reverberações da guitarra, uma confusão linda de se ouvir. E confusão linda é o que parece sempre ter dado o tom nos discos e nos shows do Of Montreal.

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Innocence Reaches não é ruim, mas chega em um momento avançado demais de uma discografia que já nos apresentou ideias musicais muito mais arrojadas muitos anos antes. Flerta com o eletrodance na simpática “Let’s Relate”, com o eletrônico em “A Sport And a Pastime”, fica mais roqueira e orgânica em “Gratuitous Abysses” e “Les Chants de Maldoror”, e ainda usa escolhas estranhas de harmonia para não deixar de soar estranho também, como em “Chaos Arpeggiating”, mas sempre mantendo o colorido característico da banda e uma felicidade débil (do tipo que pessoas maluquinhas teriam). Falando assim, parece que está tudo no lugar. O problema é que tudo soa um pouco conservador (para os padrões que o próprio Of Montreal estabeleceu para si mesmo, é claro) e não tão interessante assim.

“My Fair Lady” é um dos destaques do álbum, um tipo de composição excêntrica em que a linha de baixo e as batidas regulares fazem o ouvinte parar por um momento para perceber que não se trata de música eletrônica, na verdade. Cai em um refrão mais próximo do dance, com uma ponta de melancolia, e termina com um saxofone solando na periferia da mixagem, deixando o centro para os longos acordes do teclado. “Def Pacts” é outra que merece menção como uma conquista de Innocence Reaches. Mais instigante sozinha do que metade do disco, espacial como o Pink Floyd e alterna a dinâmica de forma brusca.

A voz de Barnes e sua procura por ampliar a sonoridade cada vez mais estão presentes, conferindo mais uma vez aquela assinatura quase sem paralelos que o Of Montreal possui na música indie americana e mundial. O compositor afirmou que havia se desligado um pouco do passado, do som dos Beatles e dos Beach Boys (que sempre nortearam sua percepção de ousadia musical), para ouvir produções mais recentes, de gente como Arca, Chairlift e Jack Ü. Uma faixa como “Trashed Exes” mais sofre com essa influência da música atual do que se beneficia dela, pois ao mesmo tempo em que parece algo arrastado e difícil de ouvir, pois vezes sem conta as músicas da banda assim nos pareceram no passado, soa também como uma faixa aborrecida, que não sabe para onde vai com suas quebras no ritmo e arranjos de sintetizador. “Chap Pilot”, com ritmo constante e efeitos sonoros mil lembra a fase mais recente do Flaming Lips, mas sem o mesmo brilho e sem o mesmo senso de propósito.

Por melhor compositor que Kevin Barnes seja, parece atravessar uma fase em que a criatividade a forma de expressão não estão andando sempre juntas. A própria questão de gênero, que sempre foi notável na forma como Barnes se apresenta ao vivo – com roupas extravagantes, divertidas, malucas ou mesmo vestido de mulher (ou mesmo até pelado!) –, era um dos elementos que complementava o propósito excêntrico de seu indie rock. Isso está presente em “Different For Girls”, música em que discute a questão de gênero e acusa a forma como a sexualidade é pensada de uma forma bem irônica. A letra e o assunto são ótimos, uma pena a música e o resto do álbum não serem interessantes na mesma medida.

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The Beatles – Revolver (1966) completa 50 anos

O disco que representou a guinada criativa de uma banda em busca de mudança

Por Gabriel Sacramento

O que é?

Revolver, lançado em 5 de agosto de 1966, é o sétimo álbum dos Beatles e representa o início da virada estética na carreira da banda.

Histórias e curiosidades

Em 1966 os Beatles já tinham alcançado o mundo com hits de sucesso, oriundos dos álbuns anteriores. Mas o sucesso – que sempre acarreta consequências – estava pesando nos ombros dos quatro rapazes de Liverpool. Os concertos lotados, os gritos histéricos dos fãs, toda a fama e prestígio perante a imprensa, tudo isso fazia parte da vida dos músicos na época e não os agradava mais. Algo precisava mudar para o fab four.

Ao contrário dos fenômenos do pop atual que quanto mais famosos ficam, mais querem ficar, os Beatles não queriam todo aquele hype. Desejavam mudança, estavam cansados de toda a atenção e decidiram dar um passo adiante, fazendo algo diferente. Daí veio o Revolver.

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Vale ressaltar que o desejo dos Beatles por uma nova fase também refletia a vida deles naquele momento: John e George começaram a experimentar LSD e a pensar diferente, todos amadureceram e assumiram o risco da mudança e da busca pelo inexplorado.

A mudança começou com a escolha do local onde gravar. Primeiro, tentaram gravar no estúdio da Stax (gravadora famosa de soul music da época), mas logo depois desistiram e preferiram continuar no velho Abbey Road. E com o velho George Martin na produção.

No Abbey Road, passaram a encarar o estúdio de uma forma inovadora, como um enorme instrumento, algo que contribuiria ativamente com as músicas, junto com os instrumentos. Utilizaram ruídos, solos que eram colocados ao contrário, instrumentos exóticos, overdubs vocais, efeitos diversos para tratamento de vozes (inclusive uma técnica de duplicação de voz foi inventada durante as sessões deste álbum) e muito mais. Tudo isso a pedido dos quatro músicos que ansiavam por coisas diferentes.

Bem, vamos às músicas:

“Taxman” é de autoria de George Harrison. A canção fala de uma forma crítica e sarcástica sobre os abusos de impostos na Inglaterra na época. Possui uma influência forte da soul music. Já “Here, There and Everywhere” é uma belíssima balada escrita e cantada por McCartney. A lisérgica “She Said, She Said” fala sobre a experiência do uso de drogas, cantada por John Lennon. “Yellow Submarine” foi idealizada por Ringo Starr para ser uma canção infantil e possui melodias agradáveis e marcantes. “Love You To” é cantada por Harrison e mostra a influência da música indiana sobren os ingleses, com preponderância da cítara. “Tomorrow Never Knows” é o ápice da lisergia sonora: com apenas uma nota, efeitos e ruídos diversos, instrumentos executados de trás para frente e uma levada de bateria icônica executada por Ringo.

“Eleanor Rigby” é mais uma criação de McCartney. A curiosidade sobre ela é que nenhum Beatle tocou nada, somente gravaram vozes. O arranjo (feito por George Martin) é preenchido somente por violinos, cellos e violas, rompendo com o formato de banda que os Beatles tinham utilizado até então. É uma faixa importante por ter sido lançada como single, mesmo sendo uma faixa com letra melancólica sobre a solidão. Além disso, ninguém esperava que um single dos Beatles seria tão fora dos padrões do rock e do pop radiofônico da época (é famosa a mudança de Dó maior do refrão para o Mi menor dos versos). Assim, “Eleanor Rigby” acaba simbolizando muito bem a guinada para o lado mais vanguardista do grupo.

O novo disco marca o aprofundamento do grupo dentro do universo da música indiana, bem como da música psicodélica (que seria muito mais explorada até o final da discografia). Também marca maior participação de George Harrison nas composições e nos vocais principais. O guitarrista viria a ser o responsável pela inserção de elementos exóticos no som dos Beatles e chegou a estudar a música produzida na Índia.

Revolver é um disco sincero. Reflete o momento que o quarteto vivia e suas necessidades de romper com o som e a imagem que os definiam anteriormente. Explicita bem as experiências dos músicos com as drogas e como isso afetou a música. Além disso, não é um disco de hits radiofônicos e bonitos, como era Help (1965), por exemplo, mas é um disco com canções bem construídas, criativas e relevantes.

A experimentação de Revolver é seu ponto mais forte: a clareza com que percebemos o que cada Beatle pensou no momento de gravar cada seção e cada arranjo, sempre direcionados por George Martin, é o que faz o disco ser brilhante.

Se comparado com o disco anterior, o também sensacional Rubber Soul (1965), podemos perceber a ruptura que Revolver causou na sonoridade dos Beatles. O primeiro trazia um mix bem definidos de estilos musicais, como pop, soul e folk. Já Revolver era um caldeirão de ideias inovadoras e diferentes, passando pelo rock, mas com uma experimentação que expandia as ideias típicas do estilo. Embora seja diferente, o álbum continuou o que começara em Rubber Soul: pensar cada álbum como uma obra completa e não como um conjunto de singles.

Passa pelo teste do tempo?

Depois de cinquenta anos, o legado de Revolver continua sendo indiscutível. A abordagem criativa e diferenciada dos músicos e dos produtores influenciou produtores e músicos de todo o mundo. Uma prova disso é que a técnica de duplicação vocal criada no processo de gravação é até hoje utilizado nos estúdios mundo afora.

O disco aparece em diversas listas de melhores e mais importantes discos como as das revistas Time e Rolling Stone. Além disso, é um dos grandes lançamentos da era psicodélica da década de 60, que foi muito importante para a o rock e para a música no geral, ajudando a definir estilos modernos como o shoegaze e o stoner rock.

Phil Collins, David Gilmour, a banda Living Colour, o vocalista David Lee Roth e o Oasis são alguns dos artistas/bandas que prestaram tributos aos Beatles, especialmente ao disco Revolver, assim como o duo eletrônico The Chemical Brothers já declarou publicamente a influência de “Tomorrow Never Knows” para eles.

É um disco que marcou a música rock e a música dos Beatles. A sonoridade do grupo nunca mais seria a mesma depois do lançamento do álbum. Unindo baladas melódicas, orquestrações, experimentações, psicodelia de uma forma tão marcante e expressiva, o álbumn inaugurou um novo momento na história da música que jamais deve ser esquecido.

Ps.: A ótima série Mad Men, que retrata o mundo dos publicitários de Nova York ao longo da década de 1960, usou a música de Revolver no episódio “Lady Lazarus” (o oitavo da quinta temporada). Don, diretor criativo de uma agência em Manhattan, quer entender a mudança cultural em curso e acaba colocando para rodar o recém-lançado disco dos Beatles daquele ano de 1966. Começa a ouvir por “Tomorrow Never Knows” e dá-se conta de que as coisas mudaram mesmo e talvez ele não tenha percebido. E muito provavelmente não será capaz de dizer para onde as coisas vão também.

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Esquadrão Suicida (Suicide Squad) – a trilha sonora (2016)

Ótima seleção de músicas, mas mal aproveitada ao longo do filme

Por Lucas Scaliza

A ideia era muito boa: reunir alguns vilões de segundo escalão da DC Comics em uma superequipe para realizar missões secretas e com poucas chances de sucesso para o governo dos Estados Unidos. Como esses vilões estão cumprindo penas perpétuas, talvez seja a única chance de conseguirem negociar suas penas. E para o governo – e para a sociedade – fariam pouca falta no mundo caso morram. São vistos como a escória da humanidade, afinal. Somente a premissa da história abre um caldeirão de possibilidades narrativas, com inversões morais interessantíssimas. Afinal, como conduzir uma história em que o leitor ou telespectador precisa torcer para caras maus de verdade?

O Esquadrão Suicida nunca foi uma das séries mais populares da DC. Assim como os Guardiões da Galáxia da Marvel, apenas os mais aficionados pelos quadrinhos da editora conheciam ou tinham alguma noção do que seria esse supergrupo. O poder do cinema blockbuster – e de suas milionárias campanhas de marketing – se encarregou de criar todo o buzz em cima da marca. Some isso à presença de um novo Coringa vivido por Jared Leto, um ator vencedor do Oscar e que também é cantor da banda de rock 30 Seconds To Mars, e temos talvez o filme com o maior hype do ano.

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Tinha tudo para ser um filme que colocaria os dilemas morais frequentemente vistos na enxurrada de filmes super-heroicos de cabeça para baixo, trazendo algo novo ao gênero. O diretor David Ayer, de filmes como Dia de Treinamento (2001), Marcados Para Morrer (2012) e o filme de tanque de guerra Corações de Ferro (2014), já tinha provado que sabe construir cenas de ação interessantes, criar tensão e dirigir atores. Mas o resultado em Esquadrão Suicida é decepcionante em todos esses aspectos, inclusive no musical.

Para começar, a história é apenas um fiapo. O grupo de vilões (que não cometem vilania nenhuma ao longo de todo o filme) precisa atravessar a cidade de Midway para primeiro resgatar Amanda Waller (Viola Davies), a chefe linha-dura do Esquadrão Suicida, e depois enfrentar dois inimigos poderosos (com um grau de destruição totalmente fora dos padrões enfrentados pelo Esquadrão em suas histórias originais).

Há muitos furos de roteiro, basta olhar com mais atenção e menos empolgação para vê-los. A produção inclusive utiliza a trilha sonora – repleta rock, pop e hip hop – para ajudar a construir cada personagem. Mas como o espaço dado para a apresentação de cada um é pequeno, a música vira uma muleta. Quando Amanda Waller (a verdadeira anti-heroína do filme, aquela personagem casca grossa mesmo) surge para recrutar Arlequina, a música é “Symphathy For The Devil”, dos Rolling Stones. E a personagem de Margot Robbie ainda pergunta “Você é o diabo?”, deixando claro como a redundância do roteiro e da música utilizada desconfia da inteligência do espectador.

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Há muito mais músicas no filme do que na trilha sonora lançada (ficaria muito caro licenciar tudo para o disco do filme) e a seleção é excelente. Tem The White Stripes, Black Sabbath, AC/DC, Queen, Etta James, Kanye West e muitos outros. O repertório não é o problema: juntar todas essas músicas (que listei lá embaixo para facilitar) forma uma ótima playlist condizente com o espírito do filme, misturando clássicos com canções mais atuais. No entanto, nem todas são bem utilizadas e várias surgem para realçar a obviedade da narrativa, como na cena com Amanda Waller chegando na cela de Arlequina.

Assim que o filme começa, vemos o Pistoleiro (Will Smith) preso, socando um saco de boxe com a música “The House Of The Rising Sun”, clássico dos The Animals, ao fundo. A prisão em que ele está fica na Louisiana. Junte todos os elementos e a primeira estrofe da música: “Tem uma casa em New Orleans/ Chamam de Casa do Sol Nascente/ E ela foi a ruína de muitos outros pobres garotos/ E Deus, eu sei que sou um deles”. Ou seja, uma música que fala de um lugar para condenados no estado da Louisiana e um personagem condenado numa prisão na principal cidade da Louisiana. Ótima música, mas literal demais.

A música “You Don’t Own Me” é de 1963, gravada por Lesley Gore quando ela tinha apenas 17 anos, mas a versão executada no filme é de Grace e G-Eazy, misturando a música original com partes de rap. A letra diz: “Não sou sua/ Não sou um de seus brinquedos/ Não sou sua/ Não diga que não posso ir com outros rapazes”. Não é difícil supor que é a música que introduz Arlequina, né? Mas é uma boa escolha. “Super Freak”, de Rick James, sucesso da Motown em 1981, é outra cuja letra e o jeito divertido e colorido foi associada à Arlequina, desta vez acertando em cheio.

“Paranoid”, do Black Sabbath, chega com tudo em um momento do filme em que coisas emocionantes parecem estar para acontecer. Assim, os acordes de Tony Iommi e o baixo Geezer Butler servem como uma injeção de ânimo ao momento. A clássica “Seven Nation Army”, do The White Stripes, surge justamente na cena em que todos os integrantes do Esquadrão e mais alguns soldados americanos se reúnem (apressadamente) para saírem em missão. De novo, ótima música, mas usada de modo literal demais. Em seguida, com o time já formado, ouvimos “Without Me”, um tremendo sucesso comercial de Eminem em 2002. A música é ótima para o momento em que é executada e sua letra combina perfeitamente com o Esquadrão Suicida, já que é uma música em que o rapper de Detroit afirma a sua posição de figura contraditória na música mainstream. O problema desta é que acaba totalmente picotada. Temos a intro, a primeira parte pela metade, um refrão apressado e já pula para o final. Se tem uma música que simboliza o filme como um todo, é esta. Toda editada acaba não fazendo muito sentido (como o filme) e embora a controvérsia e o espírito mais caótico esteja no centro do Esquadrão nos quadrinhos e na música, é justamente o que falta ao filme.

Clássicos roqueiros como “Spirit In The Sky”, de Normal Greenbaum,  “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, do AC/DC, e “Fortunate Son”, do Creedence Clearwater Revival, dividem espaço com hip hops modernos como “Know Better”, de Kevin Gates, a pesada “Black Skinhead”, de Kanye West, e a eletrônica “Gangsta”, de Kehlani. Todas executadas sem ocupar muito tempo e, como cada uma serve para complementar a apresentação de um personagem ou situação, é fácil perceber como o roteiro se apressa.

Se Esquadrão Suicida sofre com o fraco storytelling, sofre também ao tentar ser o Guardiões da Galáxia da DC/Warner. O filme da Marvel, além de melhor construído, cuidou direitinho de sua seleção musical. Além de escolher músicas populares de rock e soul dos anos 70 e 80, soube dar a elas um motivo especial e marcante para existir ao longo de todo o filme. Não apenas Peter Quill tem uma relação emocional com sua Awesome Mixtape, mas nós também somos levados a ter, como espectadores, por sempre significarem algo em uma parte significativa do filme. A seleção de Esquadrão é boa, mas nada menos que 17 músicas (de um total de 23) são tocadas na primeira meia hora de filme, comprometendo demais o aproveitamento de cada uma.

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A boa versão do Panic! At The Disco para “Bohemian Rhapsody”, do Queen, fica para as últimas cenas do filme, sendo sucedida pelo hit “Heathens”, do Twenty One Pilots, que é ameaçadora no discurso e doce na expressão (um pouco como os pretensos vilões do filme). No fim, há “Sucker For Pain”, feita exclusivamente para o filme pelo combo Lil Wayne, Imagine Dragons, Logic e Ty Dolla $ign, sem falar na participação de Ambassadors. Uma faixa comercial que aposta em um rap levinho e um refrão melodioso.

“Purple Lamborghini”, de Rick Ross e Skrillex, funciona como a música tema do filme. É burocrática e esquecível que se aproveita das tendências do rap e do eletrônico, sem nenhuma intenção de ser transgressora. É um filme mainstream e a música tema reflete esse mercado também, afinal de contas. O clipe tem a participação de luxo de Jared Leto como Coringa, mas é totalmente vazio de significado.

Mais sorte tiveram os músicos e produtores Mark Ronson e Dan Auerbach (The Black Keys, The Arcs) que, junto do rapper Action Bronson, entregaram especialmente para o filme “Standing In The Rain”, uma boa versão da resgatada “The Rain”, de Oran Juicy Jones, lançada originalmente em 1986. Embora siga a mesma ideia de “You Don’t Own Me” – regravar música antiga e enfiar um rap no meio –, o bom gosto dos envolvidos faz com que seja uma faixa interessante, principalmente pelo ótimo refrão de Oran Jones na voz de Auerbach.

As pesadinhas “Wreak Havoc”, de Skylar Grey, e “Medieval Warfare”, da Grimes, estão no disco da trilha sonora, mas nunca dão as caras no filme. Ou os direitos autorais e de licenciamento de Black Sabbath, The White Stripes, AC/DC e Rolling Stones são altos demais e quiseram completar o álbum com um bônus, ou então as músicas de Grey e Grimes estavam em cenas que acabaram de fora da versão final do filme. Afinal, essa versão esquálida de Esquadrão Suicida teve diversas cenas importantes para o desenvolvimento dos personagens cortadas – e várias delas dariam um tom mais grave à narrativa.

O Esquadrão Suicida que funcionou no cinema foi lançado em 2015 e foi dirigido por Quentin Tarantino. Os Oito Odiados é uma reunião de caras maus de verdade que, ao longo de três horas, fazem questão de mostrar o quanto são misóginos, violentos, amorais, mentirosos e manipuladores até na hora da morte. O filme de Tarantino tem tantos personagens quanto o de Ayer, a diferença é que todos vão revelando porque são escrotos e percebemos que estamos diante de gente ruim de verdade. Mesmo o protagonista é um dos mais sádicos, coisa que nem mesmo o Coringa ou capitão Bumerangue conseguem parecer no Esquadrão.

Resumindo, o roteiro de Esquadrão Suicida tem mais furos que os alvos do Pistoleiro e a boa seleção de músicas acaba sendo mal aproveitada. O álbum da trilha acaba deixando de fora a maioria dos clássicos do rock, ao passo que a trilha de Guardiões da Galáxia, só para efeito de comparação, teve uma melhor curadoria para manter em sua Awesome Mixtape Vol. 1 clássicos nostálgicos que nos ligam sentimentalmente ao filme e à história de Peter Quill e seu grupo. Quase como uma piada, o disco de Esquadrão fecha com a versão climática de “I Started a Joke”, música dos Bee Gees que deu o tom mais sombrio do primeiro trailer do filme, quando realmente parecia algo ameaçador. No entanto, é só um lembrete do que o filme poderia ter sido e essa música nem está no corte final.

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Músicas usadas no filme (na ordem em que aparecem):

“House Of The Rising Sun” — The Animals
“You Don’t Own Me” — Lesley Gore
“Sympathy For The Devil”— The Rolling Stones
“Standing In The Rain” — Action Bronson, Mark Ronson and Dan Auerbach
“Super Freak”— Rick James
“Purple Lamborghini” — Skrillex and Rick Ross
“Dirty Deeds Done Dirt Cheap” — AC/DC
“Slippin’ Into Darkness” — War
“Fortunate Son”— Creedence Clearwater Revival
“Black Skinhead”— Kanye West
“Gangsta” — Kehlani
“Over Here” — Rae Sremmurd feat. Bobo Swae
“Know Better” — Kevin Gates
“Paranoid” — Black Sabbath
“Seven Nation Army” — The White Stripes
“Without Me”—Eminem
“Spirit In The Sky” — Norman Greenbaum
“Come Baby Come”— K7
“I’d Rather Go Blind” — Etta James
“Symphony No. 3, Op. 36 “Symphony of Sorrowful Songs”: III. Lento – Cantabile semplice” — Henryk Górecki
“Bohemian Rhapsody” — Queen
“Heathens” — twenty one pilots
“Sucker For Pain” — Lil Wayne, Wiz Khalifa & Imagine Dragons with Logic and Ty Dolla $ign (Feat. X Ambassadors)