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Os 20 Melhores Álbuns de 2016

Chegou a hora de conhecer quais são os 20 melhores álbuns de 2016 de acordo com a equipe do Escuta Essa Review!

Não foi nada fácil fazer essa lista. Cada disco que decidíamos incluir entre os melhores significava deixar mais dois ou três muito queridos de fora. Mas sacrifícios precisam ser feitos para chegarmos aos mais significativos de um ano que foi uma bagunça socialmente, politicamente e economicamente, mas que trouxe muitos bons álbuns para nós.

Temos rock e R&B, música eletrônica e jazz, intersecções pelo pop pela MPB, música de gente que se tornou pai, música de gente que perdeu entes queridos, música sobre feminismo, racismo e homofobia, psicodelia e retrô futurista. Sem falar que 2016 foi um ano especialmente bom para o heavy metal. E claro, espere uma ou outra esquisitice ou excentricidade em nossa singela listinha.

Abaixo há uma playlist com as 20 músicas presentes no episódio 16. Compartilhe e ouça para, talvez, conhecer algumas coisinhas diferentes.

Se algum álbum favorito de vocês não entrou na lista de 20 Melhores de 2016, não deixe de conferir a lista de 15 Melhores do 1º Semestre também. (E quem sabe você queira conferir também quem foram nossos escolhidos de 2015).

Este é último episódio de 2016 do Escuta Essa Podcast, mas ano que vem tem mais. Obrigado a todos que nos acompanharam até aqui. Coloque seus fones e divirta-se!

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15 melhores álbuns do 1º semestre de 2016: goo.gl/dUKrWF
20 Melhores álbuns de 2015: goo.gl/nwtFNc

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Rolling Stones – Blue & Lonesome

Os Stones fazem blues, mas não tão bem como antigamente

Por Gabriel Sacramento

E os Stones lançaram um álbum novo depois de 11 anos. E o álbum não é de inéditas, embora faça tanto barulho como se realmente fosse. Em Blue & Lonesome, os bad boys londrinos trazem covers do estilo que os influenciou em toda a carreira musical – o blues.

Covers de blues não são uma ideia nova da gangue de Mick Jagger e Keith Richards. Afinal, eles começaram na música tocando covers de artistas como Muddy Waters e Chuck Berry. O ótimo Rolling Stone (1964) é uma prova de que a banda tinha um jeito muito próprio de interpretar canções do estilo americano. Assim como outras bandas inglesas, inclusive, que traziam mais do que o sotaque para o estilo que nasceu do outro lado do Atlântico.

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Esse jeito próprio aliado a uma inocência característica de jovens iniciantes no mundo da música era o que tornava fantásticas as coleções de clássicos do blues que executavam. E isso foi justamente o que faltou em Blue & Lonesome. A inocência deu lugar a megafama e pretensão de um grupo que conquistou o mundo com seu som, gerando um álbum que obedece aos limites do estilo, mas não brilha como antigamente.

Não estou sendo saudosista, até porque não sou daqueles que admiram somente os Stones do anos 60 e 70 de “Gimme Shelter” e “Brown Sugar”. Gosto também das produções mais modernas do grupo, como o Voodoo Lounge (1994). A questão é que Blue & Lonesome soa como um grupo de velhinhos que sabe fazer música extravagante, festeira e que não respeita regras rígidas, mas que optam por fazer justamente o contrário – música superprevisível e engessada.

“Just Your Fool” abre o álbum com uma das características marcantes do blues britânico, a presença da gaita. A voz cansada e sem energia de Mick Jagger entra em cena sobre uma base estática e um desenvolvimento sem surpresas. É o blues que você já ouviu 98.177 vezes por aí, afinal. A faixa que dá o nome ao álbum tenta ser um blues mais triste, mas a interpretação de Jagger fica devendo. “I Can’t Quit You, Baby” é uma versão da icônica faixa do Willie Dixon, e é impossível não lembrar da versão emblemática que o Led Zeppelin gravou, que soava bem mais marcante que a desse álbum, inclusive. O grande destaque da faixa é ter Eric Clapton na guitarra (que também fez um álbum de blues esse ano, que soa bem menos previsível que esse dos Stones). A guitarra de Clapton também surge em “Everybody Knows About My Good Thing”.

Os Rolling Stones sempre foram conhecidos pela irreverência musical. Afinal, era fabuloso ouvir discos como Exile On Main Street (1971) ou Let It Bleed (1969) e ficar imaginando se, quando eles gravaram, estava rolando uma grande festa dentro do estúdio, tamanha a energia da banda nestes registros. Tudo bem, era rock’n’roll; agora é blues. Era esperado que soassem menos festeiros. Porém, agora vemos muito pouco (abaixo do pouco que era esperado) da energia e vigor típicos deles e a banda soa cansada e mecânica.

Além disso, eles também não soam emocionais como deveriam. Algumas das canções que escolhidas e o estilo em si requerem entrega e sensibilidade, justamente o que os Stones não conseguem passar muito bem. Eles tentaram simular um disco de blues, trazendo as estruturas do estilo, as harmonias, mas falta o quê de desolação e tristeza profunda que um bom disco do gênero apresentaria.

É comum que muita gente elogie os caras por trazerem um disco novo depois de tantos anos e levando em conta a importância deles para o que conhecemos como rock and roll. Mas temos de considerar que Blue & Lonesome não representa os Stones fazendo blues da melhor forma. Talvez a idade dos músicos tenha pesado. Ou simplesmente foi a pretensão de fazer algo muito blues que acabou suprimindo a criatividade.

Enfim, dessa vez não estava rolando uma festa no estúdio quando gravaram.

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Anohni – HOPELESSNESS (2016)

Uma estreia com música eletrônica de ponta e de protesto

Por Lucas Scaliza

Não é a toa que Anohni resolveu chamar seu disco solo de HOPELESSNESS (“desesperança”) com todas as letras maiúsculas. É um trabalho musical impactante e que toca em vários grandes temas da humanidade contemporânea e não tenta emitir uma visão favorável do mundo em que vivemos e nem buscar o lado bom das coisas. Nem aponta saídas, fazendo com que o conteúdo do álbum tenha um quê de urgência que se traduz muito bem em seu pop eletrônico forte e agudo, vibrante e saturado.

HOPELESSNESS é um álbum de protesto firme em seu propósito da primeira à última faixa. “Drone Bomb Me” assume a perspectiva de uma criança afegã para falar de uma guerra feita por drones, tornando o ato de matar mais fácil e impessoal, enquanto o horror da explosão ainda é o mesmo de sempre. “4 Degrees” é sobre a indiferença das nações e empresas frente ao aquecimento global e suas consequências nefastas. Anohni embala versos duros em melodias bonitas para mandar sua mensagem: “Quero ouvir os cães gritando por água/ Quer ver o peixe ficar de barriga pra cima no mar/ E todos os lêmures e todas essas criaturinhas/ Quero vê-las queimar, pois é só 4 graus”. E “Watch Me” é sobre a vigilância do governo dos Estados Unidos sobre seus cidadãos e sobre qualquer outro cidadão do mundo.

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Interessante é notar como Anohni encontra pontos de vista interessantes para cantar sobre cada assunto, colocando o assunto em uma pequena narrativa musical e não apenas falando como uma voz que tudo sabe e tudo acusa. E mesmo uma música como “Execution”, que fala sobre a pena de morte nos EUA, consegue ser sensível e até mesmo leve. Contudo, faz de “Obama” a música política mais soturna de 2016. Anohni lembra que execuções, guerras e ineficiência frente ao aquecimento global ocorreram durante a administração de Barack Obama e não o poupa. Se há desesperança nos EUA, ela é culpa dele também.

Olhando o álbum como um todo, é bom sempre desconfiar se algo não parecer afiado o suficiente. A björkesca “I Don’t Love You Anymore”, por exemplo, passa fácil como uma faixa de não-amor por alguém. Mas pense que ela está dizendo não para os EUA ou para a sua Inglaterra natal (ou mesmo para a Europa como um todo), países onde o capitalismo os fez desenvolvidos economicamente, mas não exatamente o melhor lugar para as pessoas viverem, terem seus direitos respeitados, como ela, que é uma transexual e sofreu/sofre preconceito por isso, além de diversos ataques diretos e indiretos. O álbum foi lançado antes da eleição de Donald Trump e do Brexit, o que apenas confirma a perspectiva dela: denunciar o conservadorismo agressivo e nocivo tanto nos EUA como em seu próprio país.

Anohni era conhecida como Antony Hegarty, vocalista da banda Antony and the Johnsons. Ela deixou para trás definitivamente sua persona masculina e abraçou a transexualidade. Ao ouvi-la cantar, fica claro que estamos diante de um timbre muito específico, esquisito a princípio, que tem a desenvoltura de uma mulher para as melodias e um timbre mais grave de homem. Pode levar um tempo até acostumar, mas com o tempo fica claro que estamos diante de algo bastante único.

O processo de criação e produção de HOPELESSNESS tomou três anos. A princípio, ela trabalhou com o produtor eletrônico Daniel Lopatin; depois, Hudson Mohawke embarcou no projeto. Os três se dividiram entre a criação de batidas, teclado, engenharia de som e mixagem. O resultado é um som eletrônico que não pretende ser fácil, mas também não deixa de entregar uma estrutural amigável ao ouvinte de música alternativa.

Parte americana e parte inglesa, Anohni fez um disco tão político quanto o The Hope Six Demolition Project de PJ Harvey este ano, outra inglesa que apontou o dedo na cara dos EUA sem medo. Não há como ouvir os dois discos apenas por diversão ou sem nenhum interesse humano. As letras são eloquentes demais e tratam de temas espinhosos demais para que passem despercebidas.

O protesto afiado migrou de mãos, deixou de fazer parte do rock e até das formas mais vanguardistas de música para entrar no R&B (Beyoncé e Solange) e no rap (Kendrick Lamar). PJ Harvey trouxe de volta a verve contestadora para o rock em 2016. Anohni, logo em sua estreia solo, consegue mostrar uma música eletrônica de ponta e conteúdo de sobra. Já estamos ansiosos pelo que está por vir.

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Kaytranada – 99,9% (2016)

Sabe fazer boas e criativas bases eletrônicas, misturá-las com R&B e hip-hop de um jeito bem inteligente? O Kaytranada sabe.

Por Gabriel Sacramento

O jovem haitiano, que já tinha uma carreira na música – com versões de outros artistas, composições próprias que foram gravadas por outros e um nome com reconhecimento considerável –, gravou um début convincente trazendo o melhor da mistura R&B, hip-hop e música eletrônica de uma forma inventiva e expansiva.

Expansiva porque ele vai além dos limites de cada estilo que aborda e mostra que não há limites para suas experimentações. Ele aplica suas ideias com muita liberdade em 99.9% e extrai o melhor de cada convidado.

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Kaytranada chamou um time competente para ajudar a fazer seu primeiro disco. Gente que foi muito elogiada esse ano, como Anderson .Paak e BadBadNotGood. Além de Vic Mensa, Craig David, o duo AlunaGeorge – destaque da nova geração da  música eletrônica –, entre outros. As composições são assinadas por autores variados, mas a produção é só dele. Kaytranada manteve controle criativo de tudo o que entrou em seu álbum.

Isso só reitera o quanto o jovem é absurdamente bom no que faz. Além de criar os beats, samples e bases eletrônicas das canções, ele também controla o direcionamento das faixas e como as participações se encaixam em cada uma delas.

Kaytranada não vê limites na hora de desenvolver suas ideias. As experimentações vão desde utilizar um sample da voz de Gal Costa – em “Lite Spots”, na qual ele adequa a gravação de “Pontos de Luz” (1973) ao seu ritmo e faz soar tão boa e tão groovada quanto às outras do álbum – até brincar com timbres e texturas, como em “Breakdance Lesson N.1”, umas das poucas faixas que ele não conta com participação especial.

“Got It Good”, com Craig David, é uma das melhores faixas R&B do ano e mostra como Kaytranada domina o estilo muito bem. No trap “Drive Me Crazy”, Vic Mensa lança seu rap sobre a base do produtor, resultando em uma faixa forte, poderosa e marcante. “Weight Off” possui a equipe do BadBadNotGood em uma faixa mais orgânica, com muito groove e uma timbragem excelente. O baixo é um dos destaques. Lá pro meio, na hora do break, a música deixa soar o sintetizador com trêmolo, fica mais climática e volta mais densa. A jazzística “Despite The Weather” é outras das poucas em que Kaytranada aparece sozinho e funciona como um ótimo interlúdio entre a melódica R&B cheia de elementos “One Too Many” e o hip-hop de “Glowed Up”, com Anderson .Paak. “Leave Me Alone” mescla uma base profunda, com um ritmo mais dançante, mas ainda dentro do conceito experimental do trabalho.

Como um bom produtor, Kaytranada conta com uma boa equipe de músicos que cantam, tocam ou fazem rap enquanto ele cuida para tornar tudo coeso e logicamente conectado. Todos os artistas que participam deixam suas características e trejeitos impressos nas faixas, mas tudo obedece à mente do haitiano e ao seu desejo de soar diferente e interessante.

Seja brincando com bases profundas, cheias de groove, climáticas ou com timbres e texturas, Kaytranada apresenta uma música em que atua como se fosse um cientista testando fórmulas em seu laboratório. As faixas se conectam muito bem e todas juntas trabalham para tornar o álbum uma experiência diversificada e inspiradora. O jeito como o produtor explora os elementos que compõem as faixas nos deixa curiosos para saber mais do processo de composição.

99.9% é um caldeirão musical, com elementos de hip-hop, R&B e subgêneros da música eletrônica como future house e trap. Um disco que soa como um só, mesmo que guarde várias nuances bem distintas. 99.9% de chance de ser um dos destaques musicais do ano.

E você tem 99.9% de chance de ouvir e curtir.

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Deadmau5 – W:/2016ALBUM/ (2016)

Um novo bom disco, mesmo que o próprio deadmau5 não ache que seja

Por Lucas Scaliza

A nova pasta de músicas do laptop de Joel Zimmerman, localizada no endereço W:/2016ALBUM/, confirma: deadmau5 deixou de lado mesmo a melancolia experimental do longo While (1<2) (2014) e volta a fazer músicas mais animadas usando todas as características que fazem seu som eletrônico ser tão marcante.

Veja bem, o disco – cujo nome realmente é o mesmo da pasta de computador onde estavam os arquivos de áudio – não é o melhor da carreira dele, nem mais ousado do que o anterior, mas é uma delícia de ouvir mesmo assim, mantendo o padrão da EDM de deadmau5 alto mesmo quando ele mesmo não acha que fez grande coisa. Em uma recente entrevista de capa para a NME, ele diz que W:/2016ALBUM/ é “a culminação de três anos de merdas que estavam num disco rígido”. Zimmerman é um cara que gosta de desdenhar de si mesmo, é parte da sua personalidade, mas sabe reconhecer o que fez de bom e lhe rendeu fama, reconhecimento de grandes nomes da indústria e uma mansão de 5 milhões de dólares no meio de uma floresta a uma hora de Toronto.

(Mas não se engane: o contrato dele com a EMI acabou e ele é capaz de lançar o que quiser, criativamente falando, já que agora lança sua música por seu próprio selo, sem a pressão de ter que vender horrores para contentar alguns acionistas.)

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Apesar de você reconhecer facilmente o estilão e as batidas regulares e os microbeats de deadmau5 ao longo do álbum, o produtor tem apreço por tentar seguir em frente testando algumas experiências novas, mesmo que ele mude o como e chegue muito próximo do resultado já obtido antes. Desta vez, também tomado por, quem sabe, um tipo de interesse retrô, mas também tomado pelo desafio de utilizar uma tecnologia antiga só pelo prazer do desafio, deadmau5 usa sons provenientes de fitas VHS e equipamentos do século passado para fazer sua música eletrônica (“Glish” vai te lembrar os jogos do Super Nintendo e “Car Thruster” um tipo esquisito de soul setentista feito por máquinas).

Tudo isso graças a um sintetizador Prophet 10. É como se ele não tivesse deixado os equipamentos digitais e mais modernos, pois ele sempre mostra saber para onde vai cada faixa, mesmo que algumas delas passem tempo demais insistindo em uma batida. Porém, sabendo que ele utilizou muito equipamento antigo e analógico, o feeling é diferente. Você não vai ter as mesmas texturas num disco do David Guetta ou do Calvin Harris, sabe?

Há potencial comercial em W:/2016ALBUM/. As faixas deverão agradar bastante quem gosta de um eletrônico instrumental cheio de camadas e até um certo clima de paranoia dance. “Deus Ex Machina” tem uma curta intervenção de sintetizadores que eleva a faixa a uma das melhores do disco. É aquele detalhe corajoso que faz toda a diferença, entregando um momento mais melancólico no meio de batidas constantes e um baixo sintético que martela em seu tímpano. Com um começo retorcido e um final bastante anticlimático, o miolo de “Imaginary Friends” mostra que tem vocação para a pista – e tome bate estaca. Em “2448” temos toda a glória da timbragem analógica de seus brinquedinhos logo de cara. Uma das músicas mais animadas do álbum, principalmente porque confia muito na melodia, não apenas no ritmo e na harmonia. O mesmo acontece com “No Problem”, elétrica e retrô, outro dos pontos altos do disco e que prometem embalar shows do produtor.

Acontece que tirando um momento ou outro do disco, ou talvez a música “4ware” que parece uma reciclagem pouco astuta do estilo mais básico de deadmau5, o trabalho todo é muito bom e mostra que o canadense continua com a imaginação afiada para encaixar diferentes ideias no meio de sua fórmula já consolidada. Quando você menos espera, está totalmente entrega às vibrações de faixas mais lentas como “Snowcone” e sua percussão abafada e teclados viajantes. É tudo eletrônico, mas soa orgânico. Rica em detalhes, “Whelk Then” é o tipo de faixa que dá vontade de saber como foi composta, parte por parte, e depois mixada em um todo coeso.

Por opção, deadmau5 é cara solitário, mas faz música para pistas lotadas que também funcionam muito bem para quem está flanando por aí, acompanhado apenas dos fones de ouvido. A maior parte de sua produção não tem colaboração de cantores e W:/2016ALBUM/ tem apenas uma música com vocais: o single “Let Go”, com a voz de um total desconhecido chamado Grabbitz, que deadmau5 conheceu por acaso, por meio de uma rede social e de uma versão que o cantor gravou de uma de suas faixas. Longe de ser a melhor do álbum, mas tem vocal, o que é importante para muita gente que não se contenta apenas com os beats e sintetizadores de Zimmerman.

Reluto em dizer que seja um álbum para saciar sua nostalgia dos anos 80, mas é possível encarar o trabalho dessa forma. Só não perca de vista que, independente de qualquer Prophet 10, músicas como as apresentadas por ele atualmente são frutos de uma estética que usa o passado, mas não volta a ele totalmente. Joel Zimmerman, como ele mesmo diz, não tem intenção de fazer de novo o que já fez uma vez. Usar equipamentos analógicos e um pouco da música de 1970 ou 1980 são a base para algo novo, possível apenas atualmente, e não uma volta inocente no tempo.

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Escuta Essa 15 – Uma conversa sobre The Weeknd, Bella Wolf e Scarlett Johansson

Chegamos ao episódio 15 do Escuta Essa Review e este é o penúltimo podcast do ano. Resenhamos o disco Starboy de The Weeknd e o début da banda australiana Bella Wolf, que surpreendeu todos nós!
E ainda falamos dos filmes e da música nova da atriz Scarlett Johansson (você não sabia que ela cantava?), do 1º EP solo de Taylor Hawkins, o baterista do Foo Fighters (outro que canta!) e da nova baladinha do John Mayer e a música assombrada da finlandesa Astrid Swan. A Sandy Leah é citada no programa todo. Por que será?😉

00’00”: Abertura
03’40”: The Weeknd
24’35”: John Mayer
33’33”: Bella Wolf
48’27”: Scarlett Johansson
1h01: Taylor Hawkins
1h10: Astrid Swan

Podcasts: www.soundcloud.com/escutaessareview
Facebook: www.facebook.com/EscutaEssaReview
Contato: escutaessareview@gmail.com

Resenha The Weeknd – Starboy goo.gl/81fy0q
Resenha Bella Wolf – Bella Wolf goo.gl/1CusMn

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The Brew – Shake The Tree (2016)

Banda mantém assinatura, mas com uma pegada mais acessível

Por Gabriel Sacramento

O stoner rock é um dos subgêneros mais prolíficos do rock. O estilo, ainda bastante marcado pelo resgate de um som setentista, com psicodelia, elementos de blues rock e de doom metal, nos presenteou com bandas fantásticas como Spiritual Beggars, Blues Pills, Rival Sons, Wolfmother, Radio Moscow, Graveyard, entre outros.

O estilo é muito forte na Europa, onde se concentrou boa parte das bandas pesadas mais importantes dos anos 60 e 70. E lá do Reino Unido veio um power trio chamado The Brew, que nos traz à memória o som de guitarristas como Eric Clapton e Jimi Hendrix, com ótimos vocais e uma consistência assustadora. O trio, formado pelo vocalista/guitarrista Jason Barwick, o baixista Tim Smith e o baterista e filho do baixista, Kurtis Smith, já nos presenteou verdadeiras obras primas em forma de álbuns: The Third Floor (2011) e Control (2014), por exemplo.

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Foto: Tony Mottram

O grande barato do som do grupo é justamente abusar das distorções cheias, sujas e bem timbradas e, ao mesmo tempo, explorar linhas melódicas marcantes. Nos entregam um som pesado com uma fórmula de agressividade impressionante – que depende muito das mãos afiadas de Barwick e de Tim –, ao mesmo tempo em que sabem colocar vocalizações agradáveis no meio.

Ao dar o play em Shake The Tree, percebemos de início que as guitarras estão menos pesadas que as de Control. Além da timbragem diferente, podemos perceber que a sonoridade do grupo está menos calcada nas distorções encorpadas. E de fato o vocalista Jason Barwick trabalha mais seus vocais, que soam menos gritados e ainda mais acessíveis, sem perder de vista a essência da banda. Ou seja, acima de tudo, a mudança na fórmula sonora não é tão grande a ponto de comprometer a identidade, mas representa um direcionamento diferente.

As guitarras cambaleantes de “Johnny Moore” anunciam um som mais limpo e maior participação no baixo. A voz do Jason continua no lugar com seu timbre rasgado na medida certa. A canção é um rock mais acessível, algo que se repete em vários outros momentos do álbum, como na faixa-título, no refrão de “Black Hole Soul” e em “Small Town Faces” – com ganchos melódicos que deixam clara uma conexão com algo mais pop. “Name On a Bullet” é mais pesadinha e traz um pouco mais de blues rock. Já “Knife Edge” lembra Rival Sons em seu refrão. “Without You” é uma baladinha com uma linha de guitarra fantástica, com frases precisas que adornam a canção e elevam o nível da música. Além disso, ela cresce no final e percebemos o som do instrumento magistralmente se tornando mais sujo e criando momentos mais intensos.

Se aproximar de um som mais alternativo, acessível, mais limpo e mais pop não é algo incomum no meio do rock contemporâneo. Esse ano ouvimos o Kings of Leon e principalmente o Kaiser Chiefs fazerem isso, por exemplo. Enquanto bandas como Rival Sons e Blues Pills parecem não abrir mão do som mais sujo e psicodélico com o tempo, o The Brew demonstra uma abertura maior para acepção de ideias oriundas de outros estilos.

Mas ainda assim eles fazem muito bem o que se propõem a fazer. Com um disco conciso, de apenas 36 minutos distribuídos em 10 faixas, o trio consegue passar o que quer com muita qualidade e solidez. Não há nada faltando, nem que seja considerado malfeito. Notamos a pegada mais acessível, mas ela acontece sem abrir mão da assinatura marcante blueseira da banda, mantendo os riffs, solos e vocais gritados, mesmo que menos enfatizados em alguns momentos.

Obviamente, o grupo precisa vender e talvez essa seja uma oportunidade de atrair mais fãs e aumentar a visibilidade. Shake The Tree é a combinação fabulosa entre o blues rock nervoso e um tipo de rock mais agradável e acessível. Expande ideias, alarga o conceito de rock que a banda vinha apresentando e é uma incursão bem interessante por terrenos novos. Talvez não seja o melhor do trio, mas é um ótimo trabalho. Merece que você reserve 36 minutos do seu tempo para ouvir cada nota dele.

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The Weeknd – Starboy (2016)

Starboy é The Weeknd indo mais fundo no eletrônico e mais dançante

Por Gabriel Sacramento

Neste ano de vários lançamentos R&B que fizeram barulho no cenário musical, como Beyoncé e seu Lemonade, Solange e A Seat At The Table, Frank Ocean com Blonde, Alicia Keys com Here e Blood Orange com Freetown Sound, um dos mais aguardados do gênero finalmente está entre nós: Starboy, do The Weeknd. Depois do bem sucedido Beauty Behind The Madness, que foi o décimo álbum mais vendido de 2015, o cantor volta com uma tentativa válida de se manter no mainstream sem necessariamente tentar imitar o álbum anterior.

Isso é um mérito. É comum que um artista tente aplicar a mesma fórmula do álbum mais premiado nos seguintes, o que às vezes acaba prejudicando o resultado final. Isso não acontece com The Weeknd: o canadense sabe do seu sucesso, tenta manter sua identidade, mas investe em um som diferente no novo álbum.

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Starboy, o título do álbum, vem de uma gíria do inglês que significa “popular”. E o cantor fala abertamente do seu sucesso e do prestígio que conquistou com as vendas do disco anterior. Um pouco parecido com o que James Arthur fez em seu novo álbum, só que menos sincero e profundo. Ele também fala de seus relacionamentos amorosos, seus casos com mulheres, deixando claro sua preferências por um relacionamento dessa vez.

Se em Kiss Land (2013) – seu primeiro álbum de estúdio – havia bases densas e seus comuns vocais cheios de sensualidade e suíngue, em Beauty Behind The Madness The Weeknd aprofundou as características climáticas e minimalistas do seu estilo, trazendo um pouco mais de instrumentação orgânica e hits certeiros. Já Starboy é o mais eletrônico dos três, explorando batidas e samples mais robustos que sugerem uma produção mais esmerada na parte eletrônica. É também o mais dançante, uma faceta não muito comum nos outros álbuns dele. É menos eficiente no que diz respeito aos hits que o anterior, embora emplaque algumas canções que certamente terão seu espaço.

Alguns pontos positivos do álbum são a faixa-título, “Party Monster”, “Rocking”, “Love To Lay”, “I Feel It Coming” e “A Lonely Night”. Todas com vocais irresistíveis trazendo a pegada típica R&B combinados com bases eletrônicas simples. “I Feel it Coming” é dançante e traz a produção do Daft Punk. Assim como comentamos no episódio 14 de nosso podcast, a participação do duo francês é tímida, mas a faixa continua sendo uma ótima canção de The Weeknd no final das contas. Ou seja, a participação dos franceses não foi tão boa no sentido de imprimir as características da dupla, mas acabou pesando positivamente para a qualidade da canção. A faixa-título também traz o Daft Punk quase imperceptível, mas é uma ótima canção do disco, com uma base grave e profunda e os ótimos vocais em primeiro plano. “Secrets” traz um sample de “Pale Shelter” do Tears For Fears e é uma semibaladinha que se mantém fiel ao estilo das outras faixas.

A voz de The Weeknd parece estar mais próxima do timbre de Michael Jackson neste álbum. Em muitos momentos, ele deixa claro essa influência, trazendo alguns trejeitos do estilo vocal do Rei do Pop. Percebemos isso facilmente em “A Lonely Night”, que ainda possui umas harmonias vocais muito bem colocadas.

Como um bom álbum pop, Starboy possui diversas parcerias com artistas tão (ou mais) famosos quanto ele. Temos o rapper Kendrick Lamar com um rap fantástico em “Sidewalks”, daqueles que farão muita gente correr atrás dos seus discos. Lana Del Rey participa em “Party Monster” e no interlúdio “Stargirl Interlude”. O rapper Future contribui com “Six Feet Under” e “All I Know”, além do já citado Daft Punk por trás da produção de “Starboy” e “I Feel it Coming”.

O álbum tem 18 faixas – e isso é um defeito. Por ser muito longo, The Weeknd acaba perdendo tempo com fillers – canções que reciclam ideias já utilizadas e que poderiam ser tiradas do álbum sem prejudicar o resultado final. Alguns exemplos são “Six Feet Under”, “All I Know” e “Attention”. O número extenso de faixas acaba tornando a audição cansativa e atrapalhando o efeito das canções mais marcantes.

Se em “I Can’t Feel My Face”, sucesso do álbum de 2015, o cantor canadense já tinha mostrado essa faceta mais eletrônica, dançante e acessível do seu trabalho, ele a aprofunda em Starboy, trazendo muitas canções que são coesas e trabalham juntas para anunciar esse novo direcionamento do astro pop. O disco possui ótimos hits que deixam claro a pretensão de The Weeknd e como ele almeja chegar ao topo com qualidade. Pensando em sua carreira, sua regularidade e disposição de entregar sempre bons álbuns é indiscutível. Ou seja, Starboy é um bom disco de um cara que até então nos deixa acostumados com bons resultados.

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Rael – Coisas Do Meu Imaginário (2016)

Disco representa bem as inovações do rap nacional 

Por Gabriel Sacramento

Quando se fala em rap nacional moderno, que eu chamaria de alternativo – justamente por alternar estilos e ideias –, dois grandes nomes me vem à mente de imediato: Emicida e Criolo. Ambos rappers inteligentes, que vão além do estilo, buscando intersecções com diversas nuances diferentes e falando uma linguagem moderna e criativa da nova MPB.

Além desses dois, temos também o paulistano Rael, que pensa o rap dessa forma diferente, expansiva e sem limites. Gravou o seu primeiro disco solo em 2010, o ótimo MP3 – Música Popular do 3° Mundo. Desde então, o músico vem fazendo ótimos trabalhos mantendo o alto nível da estreia e explorando ideias de jazz, pop, reggae, MPB e o próprio hip-hop.

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Com um jeito orgânico, que permite que ele se aventure por estilos tipicamente brasileiros, enquanto conversa com o hip-hop americano, Rael entrega sua mais nova obra-prima: Coisas do Meu Imaginário, com produção de Daniel Ganjaman – um dos grandes nomes do rap nacional, ainda que na parte da produção, tendo em seu currículo trabalhos com Sabotage e Criolo – e participação de nomes como Chico César e Black Alien, entre outros.

Ganjaman sabe como ninguém trabalhar diversos estilos em um álbum. Fez isso com o Criolo, por exemplo, no seu Nó na Orelha e é um dos principais responsáveis por essa multiplicidade ser tão bem feita no novo disco de Rael. A experiência do paulistano também conta: desde 2010, ele vem desenvolvendo e aperfeiçoando sua sonoridade, aprendendo com os próprios erros e acertos.

A tranquilidade com que abre o álbum em “Do Jeito” sugere algo bem melodioso, cool e cristalino. Rael sabe colocar seu rap no meio de bases não convencionais do ponto de vista do hip-hop em sua essência, e as faz funcionar perfeitamente. Em “Rouxinol”, o MPB encontra o reggae e o rap. É um dos pontos altos. “Descomunal” é pop gostoso de ouvir, enquanto somos envolvidos na atmosfera despretensiosa conduzida por uma guitarra limpa e tocada com leveza, enquanto somos apresentados à capacidade de Rael de transitar entre o rap e o canto com muita competência. Em “Aurora Boreal”, Rael explora uma veia jazzística, limpa e simples. “Estrada” tem mais de rap e uma base mais simples e convencional. Mas não abre mão do refrão melódico.

“Livro de Faces” traz uma crítica contundente à virtualização das relações humanas. Em sua história, o paulistano conta que uma mulher pela qual se apaixonou acabou se provando incapaz de manter o relacionamento com ele por demonstrar mais amor no ambiente virtual que no “cara a cara”. Rael explora isso com linguagem clara, irônica, e com uma das frases mais fantásticas que já li em uma letra de rap nacional: “Seu coração tem dono e ela não esquece/ pior que não é um homem, é um iPhone 6s”. A crítica é relevante, bem articulada e seus argumentos são expostos de maneira bem convincente. Para a moldura musical da faixa, o rapper opta pelo reggae-rap, que já é comum em seu som. Esta é, sem dúvidas, a melhor faixa do álbum.

Rael segue fazendo o seu nome na cena eclética do rap nacional com ótimos trabalhos. Coisas do Meu Imaginário é um dos melhores lançamentos da música brasileira em 2016 e representa as inovações dessa cena do rap moderno e o melhor que o estilo tem a oferecer.

O ecletismo da forma como é abordada faz esse conjunto de estilos parecer um só. A ideia de expandir o hip-hop pode parecer ruim para os fãs mais ortodoxos, mas é algo que contribui para a qualidade do estilo. A forma como Rael e Ganjaman arrumam tudo e passeiam entre as referências é incrível. Isso revela o mérito dessa cena moderna do rap brasileiro, em que os artistas mantém a essência crítica e urbana do estilo e, ao mesmo tempo, louvam a música brasileira e sua pluralidade.

Um disco imperdível dentro de uma cena musical imperdível.

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Escuta Essa 14 – A coesão estética de Bruno Mars e o retrô delícia do Justice

No episódio 14 do Escuta Essa podcast resenhamos o disco “24K Magic” de Bruno Mars, que marca uma maturação artística do cantor. Falamos também de “Woman”, esperado novo álbum da dupla francesa Justice que faz uma música marcada pela riqueza de texturas e elementos retrôs. E também fizemos uma boa discussão sobre o disco em que o capixaba SILVA canta Marisa Monte.

00’00”: Abertura
04’54”: Bruno Mars
20’28”: The Flaming Lips
30’30”: Papisa
39’30”: Justice
55’02”: SILVA Canta Marisa
1h19: The Weeknd
1h30: Pain Of Salvation

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Resenha Bruno Mars – 24K Magic goo.gl/ru2EXA
Resenha Justice – Woman goo.gl/yGqZm1
The Flaming Lips – The Castle (clipe): www.youtube.com/watch?v=WK_ggTw4lhA

Obs. Como o BrunoChair gravou com a gente falando diretamente do Hotel Califórnia (mas poderia ser o Hotel Hell também) o áudio fica um pouquinho comprometido por um tempo, mas depois normaliza. Obrigado pela compreensão.🙂